Todos os dias eu acordo pensando que a Horda não está mais lá. Os sonhos bons são poucos e tornam tudo pior. Geralmente sonho com a Horda. Quando durmo, respiro melhor e sem controle. Sonho com um calendário sem marcas. Às vezes me inspiro a escrever algo. Quando o faço, apago no meio do caminho tudo que tinha feito. É uma compulsão, já me disse uma profissional. A compulsão pela palavra perfeita me priva de toda palavra. O gozo mesmo está em corrigir, em cortar algo de si mesmo e com isso sentir-se um pouco mais perfeito. De vez em quando esqueço da presença da Horda. Escrevo mais distraído, tomo meu café, tiro o almoço do congelador. E a Horda lá. De vez em quando escuto um assovio de gelar a espinha, seguido de urros animalescos. Eu não lembro mais quando a Horda chegou, mas desde então meus dias foram cobertos de noite e poeira. Para mim a Horda não tem cor, se cobre de sujeira e panos pretos. Quando amanhece tenho a impressão que se aproximaram um pouco, fechando o cerco sobre m...
No sono antes dos sono o ente dormita em si mesmo canta palavra muda, inscreve no mundo o seu número o nascer e o pôr do sol o traçado imperfeito do rio a gaivota em seu mergulho arrojado, belo, quadrático todos bem antes sonhados na profundeza densa de um cálculo matemático
Tanto querer que nunca foi Mas era meu ainda assim Na alegria do talvez A tarde lenta O tempo é maldito e passa Ainda vivo o corpo cansa E presa na hora a alma - imensa